"O essencial é invisível aos olhos", diz Saint-Exupéry. As poucas pessoas que procuram pela arte do AIKIDO correm o risco de procurar errado, por não saber procurar. Algumas procuram, pensam que encontraram e se dão por satisfeitas com qualquer coisa. Outras procuram e não o encontram. Outras o encontram mas não conseguem vê-lo. Outras passarão a vida procurando nos lugares errados. Um dojo de AIKIDO não é revestido de néon por fora, nem mobiliado com máquinas movidas a chips e com tecnologia de última geração. As pessoas estão mais afeitas a caminhar mais por "infinitas highways", rodovias largas, iluminadas e cobertas por pétalas de rosas, do que por caminhos estreitos, íngremes e pedregosos. O padrão dos DOJOS de AIKIDO é, no geral, o mesmo: os essenciais tatames, os retratos dos mestres e senseis, algumas armas de madeira para demonstração de movimentos e muita, mas muita virtude. Então as poucas pessoas que buscam um DOJO de AIKIDO, ao encontrarem o endereço e, não se vendo ofuscadas pelo néon, pelo lado de fora, nem pela sofisticada maquinaria que guarnece as megas academias, viram as costas, decepcionadas. O AIKIDO é uma arte essencialmente "anti-marketing" pois quando o responsável pelo AIKIDO se transforma em marqueteiro, incorre naquilo que se poderia chamar de "desvio de finalidade", ou ainda "desvio de função". O marqueteiro do AIKIDO se transforma em um líder que se impõe pelo culto à imagem, como um MaoTséTung qualquer, passando o AIKIDO a ser considerado um acessório, uma bijuteria, o veículo da fama pessoal, momentânea. Como eu disse acima, o que reveste o interior de um verdadeiro DOJO de AIKIDO são as Virtudes. A primeira Virtude que deve ser adotada por todos, especialmente pelo Sensei, responsável pelos treinos, é a Humildade. A Humildade é a grande Virtude dos Sábios, dos heróis e de todos os grandes homens. Os pequenos, os homens insignificantes, os homens ridículos têm que compensar a carência dessa virtude demonstrando sempre um complexo de superioridade. Têm que se impor por qualquer outra maneira artificial, menos pelo AIKIDO. Passam a atrair outros seres pequenos e iguais a eles, como uma lâmpada atrai moscas e mariposas. Pois a luz do sol cega. Mas cega apenas aqueles que ousam encarar o sol com arrogância. Não aqueles que aceitam o sol como luz do caminho, luz da vida, fonte de vida, e entendem que devem olhar para ele com respeito, com reverência e caminhar à sua sombra sem que, no entanto, percam nada de seus benefícios. Que benefício traz uma lâmpada para uma mosca ou uma mariposa? Uma nunca deixará de girar insensatamente em volta da outra e ambas jamais sairão de sua miserável condição de lâmpada e de mosca. A arte do AIKIDO é cheia de segredos. O maior de todos, o mais difícil de ser alcançado, o mais importante de todos os segredos, é exatamente a essência do AIKIDO: a Simplicidade. Deixar de lado a complexidade do raciocínio de adultos infectados pela vida contemporânea, a fórmula da competitividade, os confrontos, os conflitos, os preconceitos, a gana de vencer a qualquer custo, a vontade de sobrepujar e, ao contrário, passar a praticar os movimentos do AIKIDO, com a mente maravilhada da criança que observa os fenômenos da natureza, do universo que se oferece à sua frente, esse é o grande segredo do AIKIDO. Mover-se com simplicidade, com naturalidade, acompanhando os sons do Universo. Este é o Segredo. Quem não perceber a música executada pelo Universo não pode treinar AIKIDO. Aquele que treina qualquer coisa que ouse chamar de "aikido", pensando em si próprio, em sua imagem, adotando postura de instrutor ou praticante de uma "luta um pouco melhor ou mais eficaz que as outras", não passa de um criminoso, um estelionatário, um ilusionista, um esnobe, utilizando-se da superficialidade de sua figura, a fim de atrair honras pessoais, o que é profundamente condenável. É como pregar alguma religião sem mencionar a existência de alguma divindade subjacente a ela, o que redundaria em um juízo de valor do tipo " já que estou pregando uma religião, observem que o tal deus sou eu". A título de ilustração, gosto de lembrar a cena de um dos filmes de Indiana Jones que, depois de alguns arrogantes escolherem cálices valiosíssimos, como se fossem o Santo Graal, a taça que teria sido usada por Jesus Cristo na Santa Ceia, e provocarem a destruição da tal caverna do filme, o mocinho raciocinou que, se Jesus era um carpinteiro, natural que a taça deveria ser aquela de madeira. Às vezes se apresenta impossível explicar fatos que por si só representem a simplicidade e o natural. E está aí algo que mentes de moscas hipnotizadas por brilhos de lâmpadas jamais compreenderão. As estradas largas e asfaltadas com pétalas de rosas conduzem a lugares que o homem que as construiu deseja que todos acabem visitando. Mas só os caminhos geralmente estreitos, tortuosos, íngremes e pedregosos, construídos pela natureza, podem conduzir o caminhante virtuoso a qualquer outro lugar do Universo.